Fotógrafo de Campo Novo do Parecis conquista prêmio nacional com coleção sobre os últimos dias da avó

A série "Últimos Dias" recebeu a maior nota da categoria Fotojornalismo na Associação Instinto Criativo e registra momentos reais de despedida, amor e memória familiar.

Últimos Dias: a história por trás da coleção premiada que mudou meu olhar sobre a fotografia

Recentemente recebi uma notícia que me emocionou profundamente.

Minha coleção "Últimos Dias" foi premiada no 4º round da categoria Fotojornalismo da Associação Instinto Criativo, uma competição de nível nacional que reúne fotógrafos de diversas regiões do Brasil. Além da premiação, a coleção recebeu a maior média entre todos os trabalhos da categoria, alcançando nota 9/10 na avaliação dos jurados.

Mas a verdade é que, para mim, essa coleção nunca nasceu pensando em concursos.

Ela nasceu de uma despedida.

Em 2025 viajei com meu pai para Içara, em Santa Catarina, para visitar minha avó, Leopoldina Steffler. Ela estava internada e seu estado de saúde era bastante delicado. Não sabíamos exatamente quanto tempo ainda teríamos com ela, mas entendíamos que aqueles poderiam ser os últimos momentos ao seu lado.

Levei minha câmera.

Não porque imaginava produzir um projeto fotográfico.

Levei porque a fotografia sempre foi minha forma de guardar aquilo que a memória, sozinha, não consegue preservar para sempre.

Durante aqueles dias acompanhei os encontros, os abraços, os silêncios, as conversas, as lágrimas e os olhares. Filhos, netos e amigos se revezavam em visitas, cada um vivendo sua própria despedida.

Desde o início decidi fotografar tudo em preto e branco.

Queria eliminar distrações. Queria sentir a emoção do momento da forma mais pura possível. Não estava preocupado com estética ou técnica. Meu foco era registrar a verdade.

A coleção recebeu o nome de "Últimos Dias" porque era exatamente isso que estava acontecendo diante dos meus olhos.

Poucas horas antes de completar 100 anos de vida, minha avó faleceu.

Depois vieram o velório, os encontros da família e o adeus definitivo.

As fotografias contam essa trajetória do início ao fim.

Mas existe algo que eu só fui compreender meses depois.

Entre as pessoas retratadas está meu pai, Nestor Paulo Steffler.

Três meses após a partida da minha avó, ele também faleceu de forma repentina.

Hoje, ao revisitar essas imagens, percebo que sem saber eu estava registrando não apenas a despedida da minha avó, mas também momentos preciosos da presença dele ao nosso lado.

Por isso essa coleção ganhou um significado ainda maior para mim.

Quando as pessoas observam essas fotografias, muitas vezes enxergam o luto.

Eu enxergo amor.

Enxergo presença.

Enxergo família.

Enxergo a importância de estar junto quando o tempo se torna precioso.

Fotografo há 18 anos e já registrei milhares de momentos importantes. Casamentos, famílias, histórias de vida, conquistas e celebrações.

Mas o fotojornalismo sempre teve um espaço especial no meu coração porque trabalha com algo impossível de reproduzir: a realidade.

Não existem ensaios.

Não existem repetições.

Não existe direção.

Existem apenas pessoas vivendo suas histórias enquanto a fotografia preserva aquilo que um dia se tornará memória.

Receber esse reconhecimento nacional é uma honra enorme.

Não apenas pelo prêmio, mas pela confirmação de que histórias simples, humanas e verdadeiras continuam sendo capazes de tocar pessoas.

Também acredito que esse resultado representa algo importante para quem produz arte e fotografia longe dos grandes centros.

Sou fotógrafo em Campo Novo do Parecis, no interior do Mato Grosso, e espero que essa conquista incentive outros profissionais a acreditarem mais no próprio trabalho, participarem de concursos, compartilharem seus projetos e mostrarem seus olhares para o mundo.

Porque grandes histórias podem nascer em qualquer lugar.

E alguns momentos acontecem apenas uma vez.

Felizmente, a fotografia nos permite revivê-los para sempre.

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